Uma poesia programada, porém inoperável, descansa no espaço público de uma cidade: impressa em objectos e corpos, pelos caminhos entre o museu e o jardim, aguarda a descoberta inquieta do cidadão. Uma operação poética, programada para ser apenas vista, inscreve, numa tecnologia digital de materialidade invertida (um código rasurado no suporte errado, i.e., um fakescript), o progressivo apagamento do amor. Um amor-código assim falsificado, integrando linguagens de programação, com coerência sintáctica, ambiguidade semântica, mas ineficácia pragmática, inscrevendo a poesia, ou o amor, essa experiência da poesia, no espaço líquido (aberto, aquoso, instável) de uma cidade. Á beira-rio, à beira-mar: no precipício, em ponte. Contra (estranhando) certa condição digital: programação poética extraída da mediaesfera, impressa na ecosfera. Á procura do vago, uma poesia - espaço - pública - sinalizando a digitalidade ofuscante, acusando a entidade flutuante dos novos modos de ser em rede. Uma poesia programada para o espaço: um projecto-poesia, um gesto em busca do reconhecimento impossível, da recognição de certa realidade humana. ReCognição pela natureza, numa telesthesia (a expressão é de McKenzie Wark) que restitua o mito perdido da informação: como troca, diálogo, toque, presença. Uma poesia digital no espaço - recondicionando a máquina, transformando os dispositivos transparentes em aparatos ilegíveis. Uma poesia que convoca o real e a sensibilidade dos corpos, dos espaços, procurando uma nova condição para a arte, a vida, o humano.