Rumor Branco propõe explorar as metamorfoses da voz em trânsito na Rádio Manobras (91.5 FM), com textos e selecção musical de Rui Torres, sonoplastia e tratamento sonoro de Luís Aly e locução de Nuno M Cardoso.
A articulação vocal e a sua transformação electroacústica em tempo real constituem os elementos mínimos estruturantes deste programa. Pretende-se explorar o som do aparelho fonador de três formas: primeiro, fundamentado historicamente numa arqueologia da poesia sonora e fonética; depois, na disseminação de leituras contemporâneas da literatura experimental portuguesa; por fim, na transformação, em tempo real, da matéria prima entretanto criada, em processos de reconstrução e transformação sonora.
O programa terá a duração de 15 minutos, a emitir às 2ªs-feiras às 21h12. Todos os meses, aos sábados, apresentar-se-ão os quatro programas do mês.
Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, selecções de “73 poems”, editado em 1994 pela Lovely Music. Joan La Barbara é uma reconhecida intérprete e ex-aluna de John Cage. Kenneth Goldsmith, um importante divulgador e praticante da poesia visual e concreta. Aqui, a primeira interpreta um conjunto de poemas visuais do segundo. Influenciado pelos ideogramas chineses, Goldsmith criou um conjunto de textos-imagem que serviram a La Barbara como pautas tipográficas para a sua expansão vocal. Minimais, no sentido em que os morfemas e as palavras são exploradas como elementos reduzidos numa sintaxe gráfica elementar. E ideogramáticos, já que da conjugação de vários textos torna-se possível gerar enorme quantidade de variações semânticas. Como Barbara reconhece, estes textos visuais foram tomados como gestos musicais, posteriormente transferidos para uma harmonização mântrica, um contínuo sonoro vocal, visual, textual. Estes gestos musicais são, na verdade, 79. 73 constitui, como o ouvinte certamente terá percebido, referência ao livro póstumo de e.e.cummings. Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, partes 1 a 5 e 44 e 45.
02:22 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 1
02:45 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 2
03:06 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 3
03:42 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 4
04:22 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 5
05:10 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 44
06:20 » Joan La Barbara & Kenneth Goldmith, “73 poems”, Part 45
Segunda Parte :: Divulgação
08:22 » Locução
A seguir, Américo Rodrigues interpreta duas Kinetofonias de Salette Tavares, “Ri m ri ri” e “Taki taki”, ambas de 1963. A palavra é tomada, na poesia experimental, como objecto multimodal. Aliando a esta verbovocovisualidade a atomização e a rarefação vocabular, temos como resultado uma aparente imperceptibilidade das origens fonéticas de toda a realidade linguística. Estes elementos mínimos da linguagem são tomados como ponto de partida para uma estetização dos próprios sons da linguagem, ganhando autonomia relativamente ao contexto maior em que se aprisionam no quotidiano. Nestes poemas, o trabalho semântico é abandonado, em detrimento do valor estético. “Ri m ri ri” e “Taki taki” pela voz de Américo Rodrigues.
09:30 » Américo Rodrigues, “Ri m ri ri”, de Salette Tavares
12:00 » Américo Rodrigues, “Taki taki”, de Salette Tavares
John Oswald, “The Case of Death”, de 1991, publicado em Discosphere. O trabalho sonoro de John Oswald resulta, na maioria das vezes, em estados de humor. Intriga, brigando com a indústria musical. Os seus “plunderphonics”, ilegalizados, são peças essenciais para compreender a mesmice da cultura popular que resulta do pós-capitalismo. Uma apropriação, por certo, mas igualmente a transformação e a metamorfose dessa mesma cultura. Desconstruindo a iconografia e a idolatria pop, as suas modulações, os seus cortes e extensões, são reconhecidamente virtuosas. Aqui, o trabalho de Oswald dirige-se para uma dramatização do texto. Inspirado pela técnica cut-up de Gysin e Burroughs, utiliza-a agora num contexto coreográfico, com James Kudelka e Peggy Baker. Em 25 capítulos, “The Case of Death”, de John Oswald.
02:10 » John Oswald, “The Case of Death”
Segunda Parte :: Divulgação
11:32 » Locução
Depois de John Oswald, passamos agora para Américo Rodrigues, interpretando “Miopia”, e Nuno M Cardoso, interpretando “Pre pro”, dois poemas de Alberto Pimenta. A fragmentação da estrutura rígida do verso, bem como da sua linearidade, é fundamental para compreender a vasta obra de Alberto Pimenta. Aliada ao humor e à irreverência, ela parece apontar um caminho que já por várias vezes explorámos no Rumor Branco: a repetição e iteração como modo de desvelamento da permanente metamorfose das escritas. Por outro lado, a utilização da concentração, a que Gomringer chamou de linguagem reduzida, complementada com a atomização e a justaposição, criando situações textuais sonoras que resultam da materialidade tipográfica dos poemas. Em “miopia”, o volume da leitura é definido pelo aumento gradual do tamanho das letras; em “pre pro”, o espaço funcional do poema é ditado pelo constrangimento da página/tela, definidos pelo autor. “Miopia” e “Pre pro”. Alberto Pimenta lido por Américo Rodrigues e Nuno M Cardoso.
13:28 » Américo Rodrigues, “Miopia”, de Alberto Pimenta
13:48 » Nuno M Cardoso, “Pre pro”, de Alberto Pimenta, com tratamento sonoro de Luís Aly
Ryuichi Sakamoto, “Haiku FM”, de 1993, em tributo a John Cage, que já cá fazia falta. A sua música sempre utilizou de um modo simultaneamente criativo e reflexivo as tecnologias de transmissão. O silêncio para vender como Muzak. A ópera tele-colaborativa em emissões de rádio. As parcerias com Billy Kluver e David Tudor. As leituras através de autores. Os mesósticos. Tudo razões para estar em sintonia com o Rumor Branco. Aqui, uma homenagem de Sakamoto, utilizando a rádio como voz a trabalhar. O haiku, ou verso haikai, forma poemática japonesa caracterizada pela concisão, e pelo corte, justapondo ideias, em versão rádio, em memória de Cage.
01:39 » Ryuichi Sakamoto, “Haiku FM”
Segunda Parte :: Divulgação
07:45 » Locução
Depois de Sakamoto compondo tendo John Cage na memória, Américo Rodrigues interpreta “Telegramando” e Nuno M Cardoso “Câmara Municipal do Funchal”, ambos de António Aragão. A literatura experimental subscreve a conceituação proposta por Arnaldo Saraiva: tal como outras literaturas orais e não-oficiais, é marginal, e marginalizada. Quebra com as convenções poéticas dominantes e oficiais. Apropria-se das técnicas mediáticas, desaparelhizando-as. Dessacralização é o que igualmente está patente em toda a obra do grande poeta António Aragão. Uma poesia marginal izada, porque incapaz de se enquadrar nos formatos definidos pelo marketing literário. Poesia de invenção que utiliza técnicas de mediação da burocracia. A burro-cracia! Apropriação, recriação dos aparelhos construídos pela sociedade do consumo. A utilização do telegrama, no caso da leitura de Américo Rodrigues, primeiro. E, depois, do aviso camarário, por Nuno M Cardoso.
09:19 » Américo Rodrigues, “Telegramando”, de António Aragão
11:49 » Nuno M Cardoso, “Câmara Municipal do Funchal”, de António Aragão (versão completa)
12:32 » Nuno M Cardoso, “Câmara Municipal do Funchal”, de António Aragão (versão rasurada)
Terceira Parte :: Transformação
13:18 » Locução
Do Haiku FM para a re-escrita dos formulários tecnocráticos, a transformação sonora, por Luís Aly.
13:30 » Expansão criativa do programa por Luís Aly.
Pamela Z, “Badagada”, de 1986, publicada no disco A Delay is Better, de 2004. Pamela Z fascina, reinventando a voz com o seu talento natural. Simultaneamente compositora e performer, o seu espectro vocal e o alcance sonoro do seu aparelho fonético ficam aqui bem evidentes. Paisagens sonoras que misturam o dote vocal com a manipulação electrónica. Nesse sentido, uma voz estendida, aumentada. Recorrendo à utilização de delays e loops, tecnologicamente depurados, não deixa porém de ser audível uma afiliação com a poesia sonora arqueológica, que confessadamente admira.
01:24 » Pamela Z, “Badagada”
Segunda Parte :: Divulgação
05:04 » Locução
Ouvimos Pamela Z. Agora, leituras de Poesia Experimental Portuguesa. Américo Rodrigues interpreta “Gostas da palavra litote?”, de Ana Hatherly, e Nuno Cardoso interpreta “Transcrição”, versões I e II, de Alberto Pimenta. Hatherly e Pimenta, não obstante diferenças fundamentais, exploram ambos a materialidade da escrita, a expressividade da escrita como problema. O aspecto lúdico dos seus textos resulta, entre outras coisas, da permutação e da combinatória. A negação da sintaxe discursiva verte-se, nesse sentido, em processos de aliteração e de exploração dos jogos sonoros da linguagem, da palavra tomada como signo autónomo. Fragmentação discursiva revelada também na repetição intensiva de certos termos, com variações de carácter minimal. Ruptura, ironia. Um desafio, certamente, para os leitores, Américo Rodrigues, primeiro, e Nuno M Cardoso, depois… interpretando Hatherly e Pimenta, respectivamente.
06:38 » Américo Rodrigues, “Gostas da palavra litote?”, de Ana Hatherly
08:08 » Nuno M Cardoso, “Transcrição”, versão I, de Alberto Pimenta
09:23 » Nuno M Cardoso, “Transcrição”, versão II, de Alberto Pimenta
Terceira Parte :: Transformação
10:28 » Locução
Luís Aly: gostas da palavra litote? É tua, e lembra-te, “a delay is better”.
10:28 » Expansão criativa do programa por Luís Aly.
Mike Patton, dois temas do disco “Adult Themes For Voice”, editado pela Tzadik de Zorn em 1996, seguido de excerto da terceira parte de Laborintus II, interpretação da peça de Berio, editado em 2012 pela editora de Patton, Ipepac records. Patton, sim, o próprio. Muito além das experiências com o rock, Patton aparece, nos últimos anos, como um intérprete vocal experimental de grande relevância, seja sob a batuta de John Zorn, seja a solo. Em Adult Themes for Voice, gravações de voz feitas em quartos de hotel durante uma tourné do grupo Faith No More, do qual foi vocalista. Ruídos vocais. 34 ruídos vocais, para sermos mais precisos. Gritos, berros, grunhidos. Elementos vocais capturados por microfones e posteriormente montados e editados pelo próprio, num TASCAM 4-Track Portastudio. A voz como instrumento. Depois disso, comprovando a sua afinidade recente com a música erudita, um breve excerto de Laborintus II, de Luciano Berio, aqui em interpretação de Patton com o Ictus Ensemble, conduzido por Georges-Elie Octors. Esta peça apenas tinha sido apresentada publicamente duas vezes. Uma, em 1965, data da sua criação, e outra em 1973, nas comemorações dos 700 anos do nascimento de Dante, apresentada no Holland Festival, em Amsterdão. Em 2010, Patton e o Ictus Ensemble recriaram essa peça no mesmo festival. Patton, “The Man in the Lower Left Hand Corner of the Photograph”, gravado no quarto 30 do Fiesta Inn, no Arizona; The One Armed VS. 9 Killers”, gravado no quarto número 169 do Hotel Ibis, em Antuérpia, Bélgica; e um breve excerto da Parte 3 de Laborintus II, de Berio.
02:14 » Mike Patton, “The Man in the Lower Left Hand Corner of the Photograph”
04:07 » Mike Patton, “The One Armed VS. 9 Killers”
06:49 » Mike Patton, Laborintus II – Part 3 (excerto), de Luciano Berio
Segunda Parte :: Divulgação
08:22 » Locução
Depois de Mike Patton, que acabámos de ouvir, Américo Rodrigues, com “Radioactividade”, do disco cicatrizando. A intervenção expressiva de tecnologias que assumem um papel preponderante na metamorfose dos textos. A magia efémera das coisas, desautomatizadas dos mecanismos de reprodução a que se submetem os registos sonoros. Tornar visível o aparato de reprodução, através da presença da materialidade dos sistemas de gravação, comunicação e amplificação. A autonomia estética do canal de transmissão, isto é, da função fática da linguagem, é o ponto de partida de Américo Rodrigues para a transformação progressiva da voz numa máquina de perguntar, inventar e devorar a tradição. Primeiro, em “Radioactividade”, acção sonora para emissão radiofónica, na qual, como explica o próprio, “anúncios, aparentemente vulgares, com conselhos absurdos referenciados como sendo sabedoria popular”, são transmitidos na noite de 28 de Agosto de 2009 na Rádio Altitude. Américo Rodrigues, cicatrizando.
09:41 » Américo Rodrigues, “Radioactividade”
Terceira Parte :: Transformação
13:00 » Locução
Ruidando o grito e exorcizando o medo, o software criativo de Luís Aly.
13:07 » Expansão criativa do programa por Luís Aly.
Robert Ashley, She Was a Visitor, 1967. Literalmente, o rumor. Repetição do título, enigmático, ao longo da performance. Um grupo de performers retém algumas sílabas, sustendo-as, respirando-as. Um cântico sussurrado. Além disso, o discurso involuntário, que sempre fascinou Ashley. O modo primitivo de articular a palavra. O fascínio pela alucinação, pela doença da consciência. A estética do falhanço reinventada em formas de escrita automática. A movimentação e espacialização dos sons. She was a visitor, com interpretação do próprio, acompanhado pelo Brandeis University Chamber Chorus, dirigido por Alvin Lucier.
01:24 » Robert Ashley, “She Was a Visitor”
Segunda Parte :: Divulgação
07:19 » Locução
Depois de Robert Ashley, sigamos com Nuno M Cardoso, interpretando “As janelas são as primaveras das casas”, de Antero de Alda. Nuno M Cardoso interpreta o poema visual “As janelas são as primaveras das casas”, de Antero de Alda, em gravação realizada por Rui Torres e Luís Aly no Porto, em 2012. Poeta visual, Antero de Alda explora a visualidade do próprio material tipográfico. O significante segue, aqui, o significado. Poema com a forma de um guarda-chuva – lembrando, quiçá, os poemas caligráficos de Apollinaire – torna-se evidente o aspecto lúdico que resulta do corte do verso que dá título ao poema. Como diria Salette Tavares a propósito de poemas visuais da sua autoria em que também o conteúdo segue a forma, poder-se-á tratar de uma alusão, e uma crítica, à “ridícula distinção” entre forma e conteúdo. O poema é uma globalidade onde a forma e o conteúdo constituem uma entidade única e inseparável.. Poema concreto: um poema que é uma realidade em si mesmo. Um poema que comunica a sua estrutura. Interpretação vocal de “As janelas são as primaveras das casas”, de Antero de Alda.
08:37 » Nuno M Cardoso, “As janelas são as primaveras das casas”, de Antero de Alda
Terceira Parte :: Transformação
09:37 » Locução
As janelas tornam-se agora as casas das primaveras. Visitam-nos as primaveras das janelas. Luís Aly e seus processos de recriação.
09:48 » Expansão criativa do programa por Luís Aly
14:27 » Genérico Rumor Branco [Final]
As janelas tornam-se agora as casas das primaveras. Visitam-nos as primaveras das janelas. Luís Aly e seus processos de recriação.
Bernard Heidsieck, Chapeau; e Ernst Jandl: JEEEEEEEEEEEEEESUSS. Dois poemas concreto-visuais interpretados por dois dos mais importantes poetas sonoros. Convergência vocal da imagem. Do disco Concrete Poetry, editado pelo Museu Stedelijk, Amsterdão, 1970, disponível em ubu.com. “Chapeau”, de Bernard Heidsieck, exemplo entre os vários poemas acção Passe-Partout, baseados em situações reais do quotidiano. Aqui, o castigo de 15 dias de prisão a um soldado dinamarquês que, aborrecido com os exercícios militares, utilizou o seu programa de rádio para ler excertos de Henry Miller. Heidsieck, poeta francês, organizador de um dos primeiros festivais de poesia sonora, pioneiro do género, explora, através da voz, a qualidade surrealizante da cena, acentuada pelo tratamento electro-acústico. Depois de Heidsieck, Ernst Jandl, falecido em 2000, influenciado por Dada, escritor de poemas experimentais desde os anos 50. O acontecimento através da palavra JEEEEEEEEEEEEEESUSS. Uma oração, como lhe chamou o próprio, escrita entre 1957 e 1966, na Áustria de onde era natural. O contraste entre a voz humana e o seu tratamento electro-acústico.
02:20 » Bernard Heidsieck lê “Chapeau”; e Ernst Jandl interpreta “JEEEEEEEEEEEEEESUSS”.
Segunda Parte :: Divulgação
09:03 » Locução
Depois de Bernard Heidsieck e Ernst Jandl, Américo Rodrigues, no seu mais recente disco, cicatrizando. Américo Rodrigues tem sido, em Portugal, um solitário representante da poesia sonora. No entanto, os seus textos sonoros problematizam de um modo espontâneo e inteligente o estatuto poético da palavra que se articula por intermédio da medialidade. Em Cicatrizando, os elementos da fala isolam a forma e a função da própria fala. Publicado pela Bosq-íman:os records com o apoio da Luzlinar e do Instituto de Estudos da Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa, Cicatrizando reúne acções poéticas e sonoras nas quais são apropriados diversos materiais que têm origem na tradição oral portuguesa. Lengalengas, orações, adivinhas. Exorcizando a palavra poética, refém do apagamento imposto pelos aparelhos de mediação. Em “Orações e confusões”, regista orações populares em espaços públicos e privados, usando para isso um gravador e um megafone.
Negativland. Em 1991, o famoso single “U2”, dos Negativland, uma paródia criativa sobre e com “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, foi impedido de circulação por fraude e infracção de direitos de autor. Em 1992, a sua revista e CD “The Letter U and the Numeral 2” foi igualmente censorada, por tentar contar a história da acusação. Em 1995, os Negativland regressam com uma nova edição, de 270 páginas, intitulada “Fair Use: The Story of the Letter U and the Numeral 2”. É do disco desta edição que ouvimos já – e continuaremos a ouvir, literalmente, até acabar – uma recensão de 26-minutos do U.S. Copyright Act, por Crosley Bendix, Director das “Stylistic Premonitions for the Universal Media Netweb”. Do disco que acompanha o livro “Fair Use”, edição número 13 da Seeland Records. A música experimental como colagem, remistura, acção poelítica. A aventura sonora. Curiosamente, também, a rádio dentro da rádio. Aventuras meta-musicais. Sem mais, Negativland, e o U.S. Copyright Act de acordo com Crosley Bendix.
00:23 » Negativland/Crosley Bendix, “Fair Use: The Story of the Letter U and the Numeral 2”.
Segunda Parte :: Divulgação
06:25 » Locução
Enquanto ouvirmos Crosley Bendix e os Negativland, Nuno M Cardoso vai interpretar um soneto visual de Fernando Aguiar, seguido de um poema seleccionado da obra “O escritor”, de Ana Hatherly. Poesia experimental portuguesa como sistema de notação para aventuras sónicas com a voz, aqui explorada por Nuno M Cardoso em leituras de poemas-ruído de Aguiar e Hatherly. A rarefação semiótica como fragmentação da legibilidade. Uma poesia opaca, uma anti-poesia. A aproximação ao conceito feita pela materialidade da tipografia. Igualmente, uma ruptura com formas e fórmulas clássicas: o soneto visual como discurso de uma resistência. Leituras de Fernando Aguiar e Ana Hatherly, por Nuno M Cardoso.
07:35 » Nuno M Cardoso interpreta soneto visual de Fernando Aguiar, seguido de um poema da obra “O escritor”, de Ana Hatherly.
Terceira Parte :: Transformação
11:47 » Locução
Tarefa difícil, remisturar criativamente os mestres da colagem. Misturar a isso todas as rupturas. Luís Aly faz seu o húmus do programa até agora emitido.
12:07 » (Ausência de) Expansão criativa do programa por Luís Aly.
Brion Gysin, “Junk is no good baby” e “no poets”, ambos de 1962, disponíveis em linha e aqui retirados do disco “lunapark 0,10”, da sub rosa. Exploração vocal da técnica do cut-up, a qual inventou com William Burroughs. Aliás, em nota paralela, lembre-se que Burroughs disse um dia que Gysin foi o único homem que alguma vez respeitou. Cortar, colar, descontextualizar a matéria da linguagem, eis o objectivo do cut-up. A experimentação com as materialidades da linguagem passam também pelo crivo da tecnologia, aqui apropriada de um modo que se torna simultaneamente reflexivo e transformador. Permutação e justaposição como forma de libertar as palavras.
01:22 » Brion Gysin, “Junk is no good” e “no poets”.
Segunda Parte :: Divulgação
04:30 » Locução
Depois de Brion Gysin, ouçamos agora Américo Rodrigues, em leitura de “Problemática da dificuldade”, de Fernando Aguiar. Texto variacional repetitivo para uma conjuração do tempo presente. Fernando Aguiar, poeta visual e performer, escreveu, em 1988. Américo Rodrigues, em gravação na Guarda em 2012, ofereceu a interpretação. A justaposição e a montagem, atribuindo novos rumos à progressão adjectiva de uma problemática da dificuldade. Prece, evocação. A crise exorcizada? Américo Rodrigues o dirá, em leitura de texto de Fernando Aguiar.
05:20 » Américo Rodrigues interpreta “Problemática da dificuldade”, de Fernando Aguiar.
Terceira Parte :: Transformação
07:03 » Locução
Cortar, colar, justapor, libertar. Agora, segundo a proposta de Luís Aly.
07:13 » Expansão criativa do programa por Luís Aly.
Pauline Oliveros, “Sound Patterns”, do disco “Extended Voices: New pieces for Chorus and for Voices Altered Electronically by Sound Synthesizers and Vocoder”. Sound Patterns, 1961. Pauline Oliveros, acordionista, compositora de referência da música electrónica erudita, introdutora do conceito de deep listening, propõe aqui um coro a cappella baseado no remix. No centro, um texto construído por fonemas, escolhidos pela compositora de acordo com o timbre, e executados através de uma série de processos e técnicas, entre os quais a exploração do ruído branco, através do som de sh e suas variações (z, p, t, ct, etc.). Partindo de um entendimento reflexivo do aparelho fonético vocal, Oliveros produz meditações sónicas. A consciência sonora do mundo.
01:00 » Pauline Oliveros, “Sound Patterns”
Segunda Parte :: Divulgação
05:08 » Locução
Acabámos de ouvir “Sound Patterns”, de Pauline Oliveros. Passamos agora para Miguel Azguime, em excertos seleccionados de Itinerário do Sal, de 2007. Itinerário do Sal, de Miguel Azguime, publicado em CD e contendo ainda um filme em DVD, é sobre a linguagem, no sentido duplamente conceitual (do significado) e da impressão acústica (do significante). A voz, bem como a música que resulta do seu processamento, e a encenação que deriva da sua relação com o corpo, tornam-se o signo a explorar. Um exemplo da “hibridez intermédia tornada possível pela actual tecnologia digital”, como explica Manuel Portela. Com recurso ao processamento electrónico em tempo real, Azguime projecta a voz e a poesia numa convergência associativa imagética que, num mesmo tempo, é multimodal e indeterminada. Uma experiência sinestésica. Como reflexão acerca do papel da notação na escrita musical e poética, esta Ópera Electroacústica torna-se convulsão meta-sonora, indagação acerca do papel da arte no nosso tempo. No tema que dá título ao disco, “Mapas de travessias” do sol, do sal, do som e do sul.
06:28 » Miguel Azguime, “Itinerário do sal”.
Terceira Parte :: Transformação
11:50 » Locução
Escutar o som, trabalhando-o electro-acústicamente, pelas mãos de Luís Aly.
12:00 » Expansão criativa do programa por Luís Aly.